domingo, 5 de novembro de 2017

Último encontro (Flávia Suassuna)


            Em novembro passado, fui à casa de meu tio Ariano: ele se recuperava devagar dos enfartos e do AVC que o tinham vitimado alguns meses antes. Toda cheia de dedos, com medo de incomodá-lo, levei-lhe de presente os meus poemas que acabavam de ser publicados. Ele deve ter entendido o gesto: aquilo era o resumo do melhor que eu pude fazer com o que ele mesmo me deu.
            Não sei direito se consegui dizer a ele o quanto o amei; provavelmente não, que as palavras são sempre insuficientes para essas coisas do amor... Mas esse relato é uma tentativa de guardar e partilhar aquelas horas. E de dizer a ele o que faltou. Certamente, ele agora compreenderá.
            Ele estava deitado na cama, e eu sentei numa cadeira a seu lado, tentando tirar de dentro de mim a maior doçura já existida. Francamente, não sou capaz de relatar com objetividade o que se passou entre nós; lembro que ele falou de tia Zélia, sua esposa; disse que a achou linda desde que a viu pela primeira vez. Confessou que pensou em casar com ela naquele momento, mas imaginou que ela não ia querê-lo. Brincando, acrescentou que tinha tido um trunfo formidável na vida: ela tinha mau gosto... Continuou fazendo graça, dizendo que sua doença tinha dado a ele duas coisas boas: estava tendo vida de príncipe, pois todos o privilegiavam em tudo agora e obtivera a certeza de que iria morrer de repente e não de uma longa e dolorosa doença.
            Depois ele mesmo perguntou sobre a “nossa fazenda”, e eu contei a ele que eu, meu irmão Alberto e Joaquim, seu filho mais velho, tínhamos este patrimônio maravilhoso desde pequenos: ele se chamava “Três irmãos” e era a mais fantástica propriedade que se pode ter. Contei-lhe que passamos horas e horas de nossa infância e juventude planejando como ela seria. Até hoje, quando eu e Alberto vemos uma casa linda, sonhamos em deslocá-la de seu canto para a nossa fazenda, por meio de mirabolantes tratores, que a reposicionariam no alto de uma colina inenarrável de perfeita que existe nas nossas terras. Outro dia, Alberto falou com Renata, a namorada de meu filho Daniel, que é arquiteta, sobre a transferência, para a nossa fazenda, de um sobrado que existe não sei onde, e ela deu uma explicação sobre a falta de propriedade de tal empresa, pois uma fazenda tem espaço e, portanto, sua casa não precisa ser estreita como um sobrado, que pertence ao universo urbano. Alberto desconcertou-se:
– Será possível – ele disse – que uma pessoa não pode ficar sonhando que vem logo um e acorda?!
Ariano achou graça e entendeu perfeitamente por que nunca a compramos...
Mais ou menos por aí, contei-lhe uma história que aconteceu comigo e minha irmã Débora:
– Queria tanto poder me aposentar e ficar a vida toda só escrevendo... – eu disse, desanimada, um dia desses a ela.
Débora nada retrucou de volta. No dia seguinte, porém, quando nos encontramos, ela me disse:
– Ô, mulher, tu estás aprendendo com quem essa história de parar de trabalhar para escrever? É com tio Ariano, é?
Eu disse a ele que fiquei calada, pois não tinha o que dizer...
E tio Ariano exclamou:
– Ô, minha querida, desculpe pela maldição que te deixei...
            Eu fiz que “não” com a cabeça enquanto sorria.
Então, não sei bem em que momento, terminei por dizer a ele que “A pena e a lei” era minha peça preferida:
            – Ela não é tão fácil como o “Auto da Compadecida” – eu lhe disse – mas é mais profunda...
            E comecei a argumentar: que era linda a ideia de fazer os personagens parecerem bonecos quando, no primeiro ato, passavam pela vida material; e um pouco bonecos e um pouco pessoas, no segundo ato, quando se aproximavam da morte... E, por fim, no terceiro ato, quando morriam, viravam pessoas de verdade, pois, enfim, tinham encontrado sua verdadeira natureza...
            Quando terminei a minha justificativa, ele disse, humilde:
            – Obrigado, minha filha. Sua opinião tem valia...
            Eu tentei retribuir com um sorriso doce...
            Aí chegou a hora do almoço, e me despedi entregando-lhe o livro.
Depois daquele dia, não o vi mais; aliás, eu o via pouco. Sua herança é toda feita de livros, afetos e lonjuras, tudo guiado por mansa e respeitosa bússola, que trago tão bem guardada dentro de mim, que um dia, um aluno meu foi ver uma palestra de Ariano e me disse na volta:
– Você parece com ele por dentro e por fora...
“É mesmo”, eu reparei...
E resgatei, por meio de lembranças e relatos familiares, a importância dos tios, que fizeram as vezes do pai, quando foi preciso...
Meu tio Ariano foi, como meu pai, seu irmão querido, um homem afortunado, porém veio mais cheio de talentos. Isso costuma constituir um perigo – não para ele, que deu conta da inexequível equação dos talentos. Sua vida inteira foi um trajeto de aperfeiçoamento e de busca por respostas. De forma admirável, repartiu tudo que estudou e aprendeu: facilitava, por meio da graça, conceitos complexos e dava explicações compreensíveis para um número expressivo de ouvintes. Religioso, sempre escreveu sobre pecados, perdões e esperanças. É verdade que nos fazia rir de tudo isso. Mas, como alguns podem reparar, tirava o riso do desespero e da dúvida.
            Com a fé aflita que Ariano me ensinou, creio que a Compadecida o recebeu de braços abertos e o encaminhou ao lugar bonito do Céu – a fazenda dos irmãos – onde estão os justos que sofrem pelos outros, como ele... E onde se pode conversar com Deus, que explica todos os enigmas e sara todas as aflições...
E, com as palavras que ele mesmo me deu, posso afirmar: virou agora aquela pessoa de verdade e encontrou-se consigo mesmo e com sua própria essência, sem as dilacerações da vida material. E descansa, em paz, depois de uma vida completa, de choro e riso, suas raízes de defesa.
Certamente, continuaremos próximos, pois há rotas que vencem todas as distâncias. Tudo isso ele mesmo facilitou, pois conseguiu, com a ferramenta de seu trabalho bonito, como poucos, multiplicar os talentos que ganhou. Guardadas as proporções, agora é minha vez: sua maldição é só uma pluma..

sábado, 4 de novembro de 2017

FLÁVIA SUASSUNA AFIRMA QUE " ARIANO SUASSUNA VIVE ! "

FLÁVIA SUASSUNA COMENTA SOBRE SUA VINDA A LIMOEIRO


Depois que acabei de falar sobre a poesia de Ariano Suassuna na Academia Pernambucana de Letras, em agosto passado, aproximou-se de mim uma figura de cara confiável de que gostei de imediato e que me fez a proposta, quase indecente a esta altura do ano, por causa das demandas de atividades de professora de cursos preparatórios para o vestibular em que trabalho, de ir a Limoeiro, dar uma palestra sobre o autor. Eu lhe disse que iria, claro, mas pensei que a história se perderia no meio do caminho e que o convite terminaria dando chabu. Não foi o que aconteceu: algumas semanas depois, Fábio André de Andrade Silva, limoeirense da gema, me liga, se apresenta de novo mais formalmente, com a delicadeza que me parece ser sua mais forte característica, e me esclarece que tudo já estava arrumado para a minha ida àquela cidade.
            Nem sei direito como ele conseguiu, nestes tempos brabos, viabilizar minha viagem: acho que ela foi uma junção de ajudas, e o que entendi depois foi que meu novo amigo fez das tripas coração e, assim coraçãomente, como diz João Guimarães Rosa, terminou por concretizá-la. Não sei como foi, só sei que foi assim. Declaro a quem interessar possa que Fábio, inclusive, cuidou para que viesse, num carro da Secretaria de Educação, um motorista em especial que tinha trabalhado com meu primo Sérgio, filho de tio Saulo.  Ambos já partiram, mas foram revisitados, na ocasião do trajeto, nas suas histórias e jeitos de ser.
            Assim que cheguei, visitei o simpático prédio da GRE (acho que a acolhida do pessoal foi que me deu a sensação boa e fresca que senti) e, em seguida, fui entrevistada na Rádio Jornal Limoeiro e na Rádio Cultural FM. Daí fomos no Galpão das Artes, o primeiro presente que Fábio e seus amigos me deram nesse fim de semana especial que tive o privilégio de ter: um lugar lindo, que abriga um palco, onde estava exposto o figurino de uma peça teatral; uma espécie de museu de brinquedos populares de madeira e outros materiais; e até uma galeria de artes plásticas, com quadros que, perfeitamente, combinavam com o ambiente. Tudo estava tão fiel às ideias defendidas por meu tio Ariano Suassuna, que tive vontade de me ajoelhar ali mesmo, diante daquele altar que o reverenciava de modo tão perfeito, para agradecer a compreensão pertinente e a abertura que o grupo tinha tido para o seu universo conceitual e simbólico. Não o fiz, é verdade, mas o que senti deve ter sido percebido – fiquei tão emocionada que Fábio teve que me ajudar a subir no palco, porque eu quis ver de perto os detalhes das roupas expostas, enquanto ele me contava que tudo aquilo tinha sido confeccionado com material doado numa campanha que arrecadara mantas, fuxicos e colchas de retalhos, tudo usado, mas em bom estado, e tinha, digamos assim, sido reciclado e ressignificado naquele deslumbrante e assombroso guarda-roupa que estava ali exposto.
            Senti, de forma tão forte, a presença do meu tio querido em tudo aquilo, que não tenho palavras para agradecer ao grupo, nem para descrever a diversidade de sentimentos que me povoaram. Não é todo dia que a gente vê sentido na vida: vi naquele lugar e, principalmente, nas pessoas que o formam (que um lugar não é nada sem pessoas) uma extensão das ações e das ideias de Ariano. E ali mesmo o imaginei descansado de sua luta, olhando lá de cima aquilo tudo através dos meus olhos, satisfeito com o resultado que se mostrava devagar.
            Depois do almoço começamos a executar a primeira parte do nosso programa central que consistiu na tal palestra que ministrei. Confesso que fiquei com vergonha da apresentação que tinha preparado, porque todos ali pareciam entender Ariano tanto quanto eu.  Depois da palestra, fui compreendendo, aos poucos, o que, de verdade, fui fazer ali: lembrar a eles que “difícil” não significa “impossível” e que há um sentido bonito na luta que eles travam para fazer o que fazem.
            À noite tive o privilégio de ver o ensaio geral do primeiro ato – o grupo costuma encenar um ato de cada vez – da peça “A farsa da boa preguiça”, de Ariano Suassuna, com a direção de Charlon de Oliveira Cabral. Na frente de uma igrejinha linda, com bandeirinhas e tudo, num perfeito cenário interiorano que estava de novo a cara de Ariano, pude testemunhar o trabalho sério, o esforço desprendido e adivinhar os cansativos ensaios e os desânimos e as motivações que tinham levado todos nós até aquele pátio, onde se descortinou de novo para mim o sonho de Ariano de realizar um teatro entre erudito e popular, que pudesse dar emoção e riso a pessoas desprovidas de renda e de acesso à cultura e que, enfim, teriam sua festa na vida difícil que vivem. Não sou crítica de teatro, mas acho que posso destacar o trabalho de corpo; a movimentação dos atores, apesar de não haver o palco, que os limitaria melhor; a prontidão das respostas engraçadíssimas às intervenções da plateia que todo teatro de rua exige; a coragem necessária para um trabalho assim tão distante daquele a que a maioria das pessoas está acostumada... Ri tanto que alguém chegou a perguntar se eu tinha sido paga para tal, a fim de puxar o riso da plateia. Na verdade, eu estava feliz de ver como meu tio está vivo naquelas pessoas...
            Portanto, eu queria agradecer a todas elas: por fazerem de suas vidas um laboratório de ressurreição de Ariano e por permanecerem firmes, apesar das dificuldades, ofertando àquelas pessoas não só lazer, mas também cultura. Lá de cima, ao lado de Compadecida, Ariano deve estar feliz e satisfeito. Ele manda dizer que esses tempos de trevas passarão, e que nós estamos no caminho certo.   



Flávia Suassuna nasceu no Recife e dele pouco se afastou desde então. Estudou na Universidade Federal de Pernambuco, onde se formou em Letras, e, em sequência, se tornou Mestre em Teoria da Literatura, com um estudo sobre a obra do escritor João Ubaldo Ribeiro. Foi professora de Literatura no Ensino Médio privado do Estado de Pernambuco, no qual contribuiu para o letramento literário de uma geração inteira de pernambucanos em virtude do que foi escolhida, em 2015, uma das "Mulheres que mudaram a história de Pernambuco". Escreveu seis livros: "Jogo de trevas", "Remissão ao silêncio" (romances), "Trança - primeiro fio" (poemas), "Trança - segundo fio" (crônicas), "Trança - terceiro fio" (resenhas) e "Poesia em cena" (livro didático sobre a poesia brasileira ao longo da história da literatura ocidental). Mantém um blog na internet chamado "Trança" desde junho de 2006, onde, primeiramente, publica tudo o que escreve.


DILHERMANDO ALVES COMENTA " O PERU DO CÃO COXO "



Impressões sobre “O Peru do Cão Coxo”

O espetáculo “O Peru do Cão Coxo” produzido pela equipe do Centro de Criação Galpão das Artes, sob regência de Fábio André, conforme presenciado no Museu Cais do Sertão, em Recife, desdobra o imaginário criado por Ariano Suassuna no primeiro ato de sua peça “A Farsa da Boa Preguiça”, de 1960, em diálogo atemporal do comportamento humano e da cultura regional. 
Conduzido por uma figura central que exerce o papel sagrado e nefasto, o ator e diretor da peça Charlon Cabral, reproduz com exímia experiência ambientando-nos para o Sertão de Taperoá, onde o tom cômico da adaptação é cadenciado pelas desgraças da riqueza e arrogância do ser  em contraponto com o “feliz” marasmo do casal humilde. O sincretismo do texto de Ariano revigora as raízes do movimento Armorial, enquanto a interpretação dos artistas exerce a vida das personagens que cercados de música, artesanato e dança, executam não somente uma magnífica homenagem ao mestre Ariano, mas eternizam a cultura de nosso povo em cada gesto, em cada olhar.
O figurino nos transporta para todo um universo lúdico, que nos mantém atentos em cada detalhe, como em suas texturas, cores e acabamentos que  remetem às vestimentas elaboradas do Barroco  europeu, em uma senda sem contrastes, onde é possível admirar a beleza da indumentária de cada caráter. É plausível destacar a campanha de agasalhos, realizada pela equipe na cidade de Limoeiro, interior de Pernambuco,  para que esse material pudesse ser (re)utilizado na confecção de tal figurino e cenário, pelo ator e figurinista Thiago Freitas, ampliando as vertentes mais humanas da produção.
Sinceras congratulações aos artistas Jadenilson Gomes, Charlon Cabral, Lucas Dias, Gaby Salles, Dvson Alves, Márcia Cabral, Gléicio Cabral e Thiago Freitas, por suas insignes contribuições para o teatro pernambucano, tal como, salvaguardar a memória popular nordestina. Meus votos para mais ações como esta, que exercem em cada um de nós a importância de um mundo mais humano,  ciente da importância do devir frenético que a arte nos propicia.

Dilhermando Alves cursa ARTES VISUAIS na UFPE